Entendimento de um Xamã

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Entendimento de um Xamã

Mensagem  Admin em Qua Mar 24, 2010 3:05 pm

Entendimento de um Xamã

Para um xamã, a Natureza é muito mais que uma mãe, é sua professora, sua verdadeira amiga, companheira. Ela é o próprio ser do xamã, sem ela o xamã simplesmente não existiria, pois, sua única função é ser o mensageiro de suas aspirações; aspirações da música viva da eterna transformação e das suas inspirações. Somos unos, indivisíveis, ou pelo menos, assim deveríamos de ser.
Ser mensageiro não só para os humanos, em ambos os lados da vida, mas para todos os nossos irmãos feitos de poeira de astros extintos, seres que rodeiam a natureza de todas as formas, virtudes e qualidades, que fazem parte da natureza, independentemente da sua constituição básica, da essência material do universo.
Têm de perceber a responsabilidade de um xamã! Para que a sua missão de vida seja cumprida ele deve ser o mais puro e flexível possível, como a água fluindo livremente, mesmo quando poluída pelos mais tristes dejectos. Deve manter sua essência inacessível, pois, as mensagens recebidas não podem ser contaminadas de forma alguma.
Quando está em serviço, a mensagem não pode ser deturpada, tem de manter a integridade e, para isso, torna-se necessário a existência de uma mente limpa e, como canal de recepção, deverá manter-se longe do alcance de interferências de qualquer natureza que não pertencente ao emissor. Não pode julgar nem tecer juízos, apenas transmitir da forma mais fidedigna possível o que recebe. Se um xamã recebe uma mensagem, um sinal, tanto a mensagem como o sinal não são dele mas sim do emissor, logo, não deve deturpar em nenhum aspecto a mensagem, mesmo que ele, xamã, não entenda (no caso da mensagem for para outro ser) ou não faça sentido. Não interessa porque não é ele o destinatário, apenas é o carteiro que entrega a carta.
Precisa ser astuto, altivo e nobre como uma raposa, já que a natureza predatória do universo exigirá destreza no decorrer das suas funções! Como a raposa, ele estará sempre presente e sempre indetectável, espreitando as energias, movimentos, sentimentos e emoções. Precisa ser determinado e confiante como o esquilo para que as vibrações tornem-se um facto no devido tempo; precisa ser destemido como um corvo pois, não poucas vezes, terá de entrar em território contaminado com as mais pérfidas energias e densidades. Por vezes tem de “combater” com criaturas trevosas, ladrões de partes da alma, resgatar das garras destes seres a energia que pertence a outra pessoa, negociando, dialogando no sentido de libertar o que não lhes pertence. E usando a sabedoria do coyote, deverá ser intocável pelas paixões humanas, pois estas são o espelho enevoado da imensa realidade do universo humano e, apesar disso, deve fazer uso dessas paixões mas jamais perder sua consciência da verdade. Deve fazer uso dessas paixões como caminho de libertação daqueles que o procuram, trabalhando o interior de cada um e nunca esquecer de trabalhar o seu próprio interior pois também ele é um “doente”. A bem da verdade, o xamã tem a responsabilidade de trabalhar sem descanso em si mesmo porque se tem o conhecimento também é para ser usado na sua cura e quanto mais conhecimento, mais responsabilidade. Mal daquele que pensa que não tem mais nada a ser curado. Se assim pensar então estará gravemente doente. Digo gravemente doente porque, de certo, tem a sua visão deturpada e é esta deturpação que poderá levá-lo para estágios de fascinação, de ilusão; deverá ser o primeiro a curar-se, embora possa não admitir tal facto enquanto estiver subjugado pela fascinação mas não esquecendo, porém, que um xamã não reconhece hierarquias, pois, "um guerreiro jamais abaixa a cabeça para ninguém e jamais permite que ninguém abaixe a cabeça para ele" (Don Juan Matos).
"A Força" é imprevisível e pode agir a qualquer instante (não reagir), sem tempo e sem momento, e será ele o responsável em domá-la e faze-la fluir pelo leito dos desejos da Natureza. Tem de ser o xamã a dominar os fenómenos e não o contrário. Se são os fenómenos que dominam o xamã é porque ele não é dono de si mesmo, não tem força, é uma marioneta e deverá repensar muito bem no que está a fazer e, talvez, parar pois perdeu a “autoridade” de xamã.
Seu centro deve ser tal, que o mundo pode ruir sob seus pés descalços e ele não deverá vacilar ou perguntar porquê, apenas agir, mesmo que seja pela não acção; fazer nem que seja pelo não-fazer, apenas testemunhar!
Já mais deve vacilar, apenas confiar nos seus professores espirituais, guias, seres de poder, o que for com que ele trabalhe regularmente. Numa “viagem, numa “jornada” se o xamã vacilar pode ser muito perigoso para ele pois, o nagual não perdoa. É preciso muito respeito, muita dedicação e, sobretudo, muita humildade.
No centro da roda sagrada, deve erguer seu acampamento e observar, em silêncio, o voo da águia, o sagrado dançar sussurrante das águias-guerreiras entre as cordilheiras da mente humana e, nalgumas situações que altas que são. Por vezes existem despenhadeiros bem perigosos dentro de nós. Estejam atentos onde põe os pés!
E que o xamã seja abençoado com o dom de voar! Ah o suspirar rústico e purificante da águia, feliz o xamã que a tem como sua protectora... A águia, com a sua visão apurada, lá no alto, no seu papel de observadora, apenas observa livremente, sem julgamento, sentindo o ar fresco nas narinas, o vento por entre suas penas e o som tão característico do bater das asas.
Da águia irá encarar o olhar da serpente a espreitá-la, ler nos seus olhos os segredos mais misteriosos da natureza, segredos que só a presença impecável do Ser da serpente pode mostrar, o desafio da morte e o temor vencido. Com os seus olhos amarelos com uma risca vertical preta, penetra no mais interno de cada ser, vendo para além do que é, encontrando nos locais mais recônditos a essência de cada um. Olhos espelho da alma; olhos portais de acesso ao interior de cada entidade. A Serpente irá iniciar o xamã nestes mistérios impossíveis de serem verbalizados, pois muito existe que não pode ser verbalizado por não haver palavras para transcrever, pois, a linguagem humana ainda é muito pobre. Só nos resta um caminho; a vivência de tais experiências quando formos merecedores de tal.
Como uma pele velha, abandonará sua viciada visão do mundo e terá sua mente liberta, livre das definições tiranas do homem comum, sentirá o mundo que a rodeia diferente, estará mais sensível, com o sentir mais apurado. Seu corpo desliza suavemente por novos caminhos, procurando novos territórios, onde viver, pois, se largou a pele velha foi por ter crescido. Só quem já desafiou o hálito da serpente pode sentir o perfume da floresta, o escaldante calor advindo das mais sombrias regiões da alma do mundo, a percepção do espaço, o viver... Através da língua sabe o peso da sua presa e a quantidade exacta de veneno para a dominar. E como dentro de nós temos tantas pressas para serem vencidas…
Sagrada e respeitável serpente... O jaguar então se aproximará, e ofuscará os olhos do xamã com suas pintas, feitas de estrelas mortas, confundindo os seus sentidos, e seus flamejantes olhos de sóis recém-nascidos. Ele o convidará para entrar no seu templo, com tapetes de pele humana e ossos a sustentando seu trono. Lá exibirá com orgulho as suas garras e dentes reluzentes devido ao sol deste encontro, e ensinará ao xamã os segredos do combate pela vida, nobre, sábio e alegre jaguar. Ele é um guerreiro que vai defender sua amada, a Natureza, e encara sua missão de luta com Amor e agradecimento, não se entristecendo com o que matará, mas se regozijando com o que esta atitude permitirá fazer viver. Guardião da floresta...
Na continuidade da sua trilha, o xamã, será abordado pelo espírito do beija-flor, aquele que cura pela alegria, o difuso pássaro de brilho trepidante irá sorrir e com o seu bico irá tocar no coração do xamã, que se encantará com o vinho embriagador da vida! O grande ensinamento do beija-flor é o riso, a alegria, a dança, as brincadeiras inocentes e harmónicas com a natureza. O xamã deve ser como uma criança a brincar num jardim, feliz, livre, despreocupado. A cura deve vir seguida de uma gargalhada, pois, é a felicidade a manifestar-se. Deve ter a grandeza de rir de si mesmo, de rir por estar vivo, de rir por existir.
Assim como o matreiro coyote, o beija-flor desafia o xamã a ver que as feridas só existem enquanto nos importamos com elas... Até nos momentos de dor o xamã não deve reagir, apenas agir. Pois ele sabe que tudo é perfeito e está bem. A vida é uma lição para nosso crescimento e a Terra é a escola. Tudo tem um sentido, tudo tem um propósito e senão descobrirmos o porquê das situações é porque ainda não crescemos o suficiente, ainda não amadurecemos para receber a bênção da resposta.
E cercado pelos quatro poderes, o jaguar, a águia, a serpente e o beija-flor, o xamã vê que é a sua presença que tudo alquimia, a Quinta Força, que é ele próprio. O poder das ligações místicas, forças misteriosas que interagem com o mundo, tendo o xamã como mensageiro. O xamã é aquele que caminha continuamente, levado pela direcção do vento, preparando a estrada para aqueles que querem jornadear na trilha do guerreiro. É aquele que acompanha na viagem, que dá água quando a sede aperta, que ajuda a construir abrigo quando anoitece, que protege, que ensina a pescar, que mostra como orientarem-se para não desnortear, que ensina a ouvir a canção do vento. É aquele ausente-presente, que age sem agir. Que cura as feridas, que ensina a encontrar alimento, que reconforta, enfim, que Ama.
Rendo homenagens a todos os animais, que com sua magnífica sabedoria, humilham silenciosamente, os tolos seres humanos. Com seus egos pensam que são o expoente máximo da Criação e, não raras vezes, pergunto-me se não somos os seres mais pobres da Criação. Basta olhar para os exemplos da humanidade. Destruição atrás de destruição apenas por ganância. Irmãos lutando contra outros para obtenção de mais riqueza, a miséria, a fome, as doenças, o desespero por um mundo melhor quando nada fazem para que isso aconteça. Ou somos mesmo estúpidos ou ignorantes. No último caso ninguém admite porque senão teriam humildade para aprender com todos os seres da natureza o que, por conseguinte, só me resta a primeira hipótese. Querem aprender a viver em sociedade? Estudem as formigas! Querem uma sociedade mais participativa? Estudem as abelhas! Querem aprender como viver em situações de catástrofe? Estudem as baratas! Querem aprender a prever sismos? Estudem as patas dos elefantes! Querem anteceder a fenómenos naturais? Estudem os pássaros!
Apenas faço reflexões sobre o que existe e rendo homenagem aos vegetais, sem eles a transcendência seria um cadafalso, um piscar de olhos cegos... Aos irmãos minerais, seres de pura luz sólida, irmãos de cura, irmãos historiadores que guardam os escritos da vida na Terra. Biblioteca imensa onde estão guardados os segredos do passado, a história dos nossos antepassados. Rendo homenagem a todas as forças da Natureza, minhas pacíficas homenagens e agradeço ao Grande Espírito por existir.
Sei que certas inspirações só podem ser pronunciadas de boca fechada! Por esse motivo nada mais direi a respeito. Talvez noutra hora, noutro momento

Muita Paz
Mário Cardeal
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